O PENSADOR OTIMISTA #1
Um dia destes não tinha nada para fazer e, como qualquer preguiçoso ou poeta que se preze, fui dar uma volta a pé, embora se deva ter em atenção que fica mal ao poeta dizer isto assim e que, por isso mesmo, quando lhe perguntam “Então, que fizeste hoje?” ele deve sempre delicadamente dizer “Perdi-me a deambular pelas ruas da cidade, sozinho”. A linguagem tem destas nuances importantes que devem ser respeitadas, afinal. Quero dizer, entre fazer nada e ser homem e fazer nada e ser homem que escreveu versos existe uma grande diferença, tal como existe uma grande diferença entre política e ladroagem, ou ser banqueiro e ladroagem, ou ser militar em Portugal e ladroagem. Que diferença é? Não sei, fui andar a pé para espairecer, não me pus a pensar nessas complicações, isso é com os outros, se bem que quando tropecei numa espingarda e cai até me surgiu de novo a palavra “Tancos” e aquela mentira de que já se tinha encontrado tudo. Mas entre “mentir” e “mentir” também deve haver diferença, por isso achei que nem nos Estados Unidos se encontram armas na rua e segui caminho.
Foi aí que cheguei a um café e percebi que chover nas salas de aula das escolas públicas enquanto as paredes têm buracos maiores do que as contas dos donativos de Pedrogão não é um problema tão grande quanto isso. Numa mesa, quatro homens mantinham uma animada conversa sobre futebol vestida de uma profunda eloquência, tanta que mal se percebia quantas minis tinham já bebido e quantos cigarros já fumado. Falavam com conhecimento de causa, aparentemente, colocavam-se na posição de treinador e jogador, falavam como se para eles! E sabiam de cor os pontos de cada equipa na liga e como calcular de cabeça as possibilidades de uma qualquer ser campeã! Maravilha o nosso ensino! Quem precisa de escola? A única diferença entre o Eça de Queirós e aqueles homens é que o Eça provavelmente não falava a gritar, mas que se quer? Já sabem nossos génios português, matemática, cidadania e até teatro (que tanto ameaçaram porrada, mas nunca se pegaram)!
Quando saí ainda conversavam. Foi então que cheguei a uma conclusão: se não tivermos cuidado, para o ano não há lenços brancos para Fátima. Gastam-se com o Bruno de Carvalho, com o Rui Vitória… Mais valia abanar as camisolas do Real Madrid, já que parece, pelo andar da carruagem, que vai descer de divisão.
Mas isto são aquelas ideias intrusivas que devem ser abafadas, como tantas outras. Tenho pena é que seja eu português e ao condená-las ao castigo de serem esquecidas, as condene a pena suspensa, como qualquer bom juiz deste país. É chato, mas que se vai fazer?
Fui para casa depois e, para relaxar um pouco mais, porque se deve sempre relaxar, decidi ouvir música. Infelizmente descobri na Internet que Portugal é uma colónia brasileira, porque o que se procura em português nos leva a resultados em português do Brasil. Mais evidências para o facto de sermos uma colónia passam pela nossa população escrever português abrasileirado porque é isso que vê escrito (epá, se calhar dava jeito ter um ensino de qualidade… olhem lá que não má ideia pôr cimento nos telhados das escolas…) e ainda por todas as músicas românticas famosas em português serem também do Brasil.
Esta revelação deu-me uma crise nervosa que me fez pensar que não ia poder dormir descansado, mas como já era tarde e estava a dar o telejornal, pelos vistos de ontem, a reciclagem de notícias deu para adormecer.
O texto acima é da autoria de Emanuel Fernandes Pinheiro, escritor publicado e aluno do 12.º ano na Escola Básica e Secundária de Campo.